23.2.09

METAL PA - FILES - apresenta - STRESS III (1996)

AVALIAÇÃO - 9,0.

Por Taion Almeida

A lógica diria que uma sessão sobre Metal Paraense não poderia começar sem uma matéria sobre o Stress. É verdade, não podíamos começar sem citar o pai da cena do rock e metal no Pará, o pioneiríssimo Stress que nos anos 70, enfrentando a ditadura militar e as dificuldades técnicas, começou a tocar seu som pesado e se tornando a primeira banda de heavy metal da américa latina, fato que nem eles sabiam direito. A lógica também aconselharia escolher como disco a ser destrinchado o clássico primeiro disco ou então o grande sucesso Flor Atômica, um dos maiores discos da história do metal nacional. Mas, neste caso, o redator deixa a lógica um pouco de lado. Não querendo ir contra a relevância histórica desses discos, este redator prefere ir na contramão do previsível.
Enquanto os dois primeiros discos, por importância histórica e sucesso são de grande conhecimento público e tem o respeito histórico, o Stress III, por diversas razões, acabou ficando na obscuridade. Um erro histórico pois na minha opinião apesar de ter uma sonoridade muito diferente de seus predecessores Stress III é um disco tão bom quanto eles. O Stress nunca deixou a bola cair e fazendo heavy metal, thrash metal ou hard rock (como fazem muito bem aqui) mostram sempre uma extrema competência.



******** CONTEXTO HISTÓRICO ********

O ano era 1996. Já faziam 11 anos desde a gravação do Flor Atômica e há alguns anos a banda tinha entrado num sistema de quase inatividade, com algumas apresentações exporádicas mas sem grandes turnês ou perspectivas de gravação de disco. Os dois últimos membros da formação original tomaram rumos distintos: André Chamon, que desde o começo dos anos 80 havia se mudado pro Rio de Janeiro, permaneceu na capital fluminense onde montou a banda X-Rated e continuou sua história de contribuições á música pesada, já Roosevelt Bala voltou pra Belém onde chegou a montar com Carlos Rufeill a Jolly Joker, mas seu grande êxito musical foi a banda Zona Rural, que entre sertanejos e clássicos do rock, conseguiu um grande público e sedimentou seu nome na cena musical paraense. A cena do rock no país sofrera um baque na segunda metade dos anos 80. Bandas que faziam o som sintetizado e pop característico daquela época ganhavam espaço nas gravadoras e o segmento mais pesado do rock iam sendo solenemente ignorados, apesar do crescimento do público. O Stress, em particular, se encontrava no meio de duas cruzadas, se por um lado não recebiam apoio das gravadoras e rádios do seu país porque seu som era muito pesado, por outro não recebia o suporte dos selos internacionais porque se recusava a gravar em inglês como os selos solicitavam.

Em Belém do Pará, a cena do rock que estava se fortalecendo bastante quando Bala e Chamon se mudaram para o rio de janeiro na primeira metade dos anos 80, se tornou grande. Bandas como Violetha Púrpura, Anjos do Abysmo e Álibi de Orfeu cresciam a olhos vistos regional e mesmo nacionalmente. O Pará entrava no começo da década de 90 com a promessa de estourar uma banda nacionalmente. O sucesso do festival Rock 24 Horas era outra coisas que animava. A primeira edição, em 1990, foi finalizada com um grande show do Stress na praça da república. Seria um retorno á cena paraense uma saída pro Stress? Não sei dizer se essa hipótese foi levantada, mas em pouco tempo a esperança cairia por terra. As tragédias da terceira edição do rock 24 horas de 1992, que terminou em confronto da polícia com público, destruição do palco e equipamentos de som e outros atos de depredação e violência, a cena do rock em Belém sucumbiu. As casas de espetáculo não abriam mais portas para o rock. Apoiadores de outrora deixaram de apoiar, envergonhados com o desfecho do festival. Se havia alguma esperança de renascimento em Belém ela provavelmente também sucumbiu com o Rock 24 Horas. O cenário era o mais negativo possível e ninguém, por mais otimista que fosse, poderia sugerir que naquele momento surgiria o terceiro disco do Stress, mas havia um fiapo de esperança.

Em 1994 as gravadoras abriram os olhos pra cena de recife, que começou a chamar atenção na mídia com o som do Mangue Beat. Ao mesmo tempo, em minas gerais, um jovem grupo chamado Skank começa a chamar atenção na mídia. O rock voltava a ganhar espaço nas rádios, apesar dos modismos de época, e um público novo começava a se formar. Apesar de todas as muitas dificuldades locais, nacionais e internacionais, seria um bom momento para o Stress arriscar mais uma vez? Os músicos concluíram que sim.




******** O DISCO ********

"Bom, não temos nada a perder, porque não arriscar"? Esse deve ter sido o pensamento que passou na cabeça dos músicos não apenas quando eles se reuniram (Bala, Chamon e Paulo Guilherme - que havia entrado na banda no lugar de Pedro Valente em 83 mas saíra por não poder se mudar pro Rio de Janeiro com o resto da banda -) para gravar de forma independente o disco em Belém, mas também quando tomaram a decisão de mudar a sonoridade no grupo para este álbum.

O Stress é reconhecido como "os pioneiros do metal no brasil" então um disco com sonoridade calcada no hard rock poderia soar estranho para ouvidos mais desavisados. Quem já conhecia a banda talvez até estivesse acostumado com o som mais pesado dos dois primeiros discos, mas se prestasse atenção perceberia a influência nítida do Hard Rock nas duas últimas faixas do Flor Atômica - "Tributo Ao Prazer" e "Jenny", canções alegres e positivas em contraste com todas as canções anteriores. Por sinal a temática das canções desse disco eram também bem diferentes dos discos anteriores. Enquanto no primeiro disco você via a tortura ("A Chacina"), a degradação humana (O Lixo) e no segundo disco se veja temas como guerras atômicas ("Flor Atômica" e "Inferno Nuclear") o terceiro disco tem temas mais festivos e alegres, nada agressivo ou violento. A mudança temática não implicou em piora das letras. Embora "Sexo Anual" e "A Tua Mãe É Moça" sejam músicas festivas, "Folha ao vento", "Nada a Perder" e "Fé em Procissão" estão entre as melhores letras do grupo.

A paixão grupos do hard dos anos 60 e 70 era notória, então não havia nada de muito estranho no grupo estravazar sua paixão pelo hard rock em um disco, embora o próprio grupo admita hoje que aquele som não reflete a sonoridade real do grupo e que um possível quarto disco teria o som mais calcado nos primeiros dois albuns. O disco foi gravado de forma independente e lançado em CD com uma tiragem limitada de 500 cópias. Foram organizados shows de lançamento em Belém e no Rio de Janeiro mas o grupo não conseguiu sair da situação em que se encontrava. E o disco, com sonoridade diferente, acabou por ficar, como o próprio Stress permaneceu, na obscuridade.


******** FAIXA A FAIXA ********

01 - ESTRELA AZUL - Canção Hard com pegada empolgante de guitarra, é uma das canções que mais lembra o peso dos discos anteriores e refrão pra ser cantado com a galera. Uma das faixas mais vibrantes do disco.

02 - SEXO ANUAL - Hard farofão com letra sacana e inconseqüente (como o próprio nome já faz imaginar). Não faz muito a minha cabeça, mas, junto da faixa nove é um dos maiores sucessos do disco entre os fãs.

03 - NADA A PERDER - Canção cadenciada, meio balada. Uma das letras mais bonitas do disco, certamente traduzindo o espírito que a banda se sentia naquele momento. A base de violão da faixa é envolvente e mostra novos elementos da cultura musical dos músicos.

04 - DANÇA DO TREM - Canção dançante e com um leve toque de malícia. Lembra um pouco o rock dançante que estava começando a brotar nas rádios. A levada de guitarra e o triângulo dão um quê de forró á música, que é bem diferente, mas é muito boa.
05 - FOLHA AO VENTO - A introdução de Blues ao violão é simplesmente sensacional. A levada hard com letra existencialista funciona perfeitamente. Clássico.

06 - MARIA MENTIRA - A música tem um quê até um pouco infantil. A letra parece uma parábola do conto "Pedro e O Lobo". Particularmente acho uma das faixas mais fracas do disco.

07 - DOR E PRAZER - Embora o título até pareça título de canção do primeiro disco (como Sodoma e Gomorra) essa aqui é um hard rock com levada agitada e letra mais consciente do que Sexo Anual.

08 - AVENTURA - Uma balada que fala sobre a traição e os efeitos dela em um relacionamento. Não faz muito a minha cabeça, mas ganha pontos pela ousadia do tema.

09 - A TUA MÃE É MOÇA? - O nome da música era uma expressão dos anos 70/80 que significava algo como "a tua mãe é virgem?" e era usada quando uma garota mostrava muitos pudores. Clássico absoluto. Hardão safado e juvenil com o maior jeito de AC/DC. Presença certa em praticamente todos os shows da banda desde então.
10 - VIGÍLIA - Canção instrumental ao teclado permeada de elementos sonoros do círio de nazaré. Uma boa preparação para o que vem a seguir.

11 - FÉ EM PROCISSÃO - Canção épica. Com quase 9 minutos é a música mais longa do Stress e tem uma pegada cadenciada, pesada e melancólica. A letra é uma emocionada narrativa sobre a procissão do círio de nazaré. É uma das melhores canções do grupo e certamente um grande clássico.
Link para Download - STRESS III - 1996

Um comentário:

Anônimo disse...

OINK PARA DOWNLOAD NÃO ESTA MAIS DISPONIVEL...