24.2.09

ZEEBO - Que bicho é esse? Parte I

Um console nacional? De jogos autorais? Numa época de crise mundial, pirataria sem fim, Playstation 3, Xbox 360 e Nintendo Wii? SIM! E foi a Tec Toy quem tocou o barco sozinha???? Mais ou menos... leia a matéria e entenderá melhor.

Quando a Sony anunciou que ia fabricar o playstation 2 no brasil e lançá-lo oficialmente ... parecia que a industria de jogos nacional sofreria sua mudança mais significativa em muitos anos (embora esse lançamento, nem de longe, significasse uma novidade tão grande em um país que já conta com milhares-milhões de PS2 rodando de forma "não oficial" por aí). As coisas estavam andando em passadas ruins, com produtoras apertando o cinto e algumas fechando as portas. O momento era certamente um dos mais improváveis possíveis para o anúncio de um novo console, quanto mais o do lançamento de um console autoral nacional. O Brasil teve ao longo de sua trajetória uma experiência imensa na produção de "consoles compatíveis", como o Phanton System e os Dynacons da vida, até hoje compatíveis com o imortal Nintendinho 8 Bits, mas no tocante a consoles autorais e com jogos próprios a aposta da Tec Toy é pioneira.

E então? O que nos aguarda? O que podemos esperar? Porque diabos uma aposta dessas? Leia a matéria abaixo e entre no misterioso mundo do Zeebo, o console brasileiro (ou quase isso).




******** De Tec Toy á TecToy - um hífen que faz muita diferença ********

Tec Toy é uma empresa que traz muitas lembranças boas e algumas ruins aos jogadores de videogame mais fissurados no brasil. Sua história podia ser dividida em dois momentos claros:

1 - De 87 até a reestruturação (TecToy) - Trouxe o Master System e todos os sistemas da Sega oficialmente para o brasil, abastecia o mercado nacional com a distribuição de jogos quase paralelamente ao seu lançamento no mercado internacional e dava o suporte necessário para que os consoles fizessem imenso sucesso (Master System e Mega Drive tem base instalada no brasil de algumas milhões de unidades). A derrocada da Sega a partir do Sega Saturn e sua retirada após o Dreamcast fez com que a TecToy começasse a viver um período conturbado. O mercado de games estava se tornando muito caro e os investimentos mais complicados. No final dos anos 90, começo do século XXI, a empresa entrou em concordata e abriu processo de falência. Parecia o fim, mas uma mudança de rumos fez com que a empresa desse uma guinada impressionante.

2 - TecToy 2.0 - Pós Reestruturação (Tec Toy) - A empresa continuou trabalhando com os consoles clássicos da Sega (Master System e Mega Drive), mas tomou algumas decisões muito polêmicas como abolir o drive de cartuchos (o que limitava os jogadores a jogar apenas o que estivesse presente na memória do console) e relançar os consoles antigos com pequenas modificações no design a preços acima da média. Enquanto em relação aos consoles a recepção do público ia mudando (pelo menos no público hardcore que começava a odiar a empresa) a Tec toy começou uma muito produtiva aproximação com outro público - a dos celulares. A Tec Toy passou a publicar jogos para celular. Não só os óbvios clássicos da era Master/Mega mas também jogos mais recentes de outras produtoras. O mercado de celular foi uma empreitada de grande sucesso da empresa e, somada a outros investimentos que ela vinha desenvolvendo (no setor de brinquedos e eletrônicos, principalmente) tirou a empresa do vermelho para torná-la uma empresa lucrativa e de bom retorno no mercado.

Ok. Lucro... empresa estabilizada... fãs hardcore enfurecidos e um cenário relativamente tranqüilo para operar. E eis que então, no final de 2008, a Tec Toy anuncia que estará lançando no mercado o primeiro console desenvolvido por uma empresa brasileira com distribuição de jogos on-line em rede 3G, e com previsão de lançamento para junho de 2009 ... HÃ?????? Sim. Você não foi o único que estranhou. Uma empresa que pouco mais de 10 anos depois de entrar em falência se arvora no lançamento de um console, investimento pesadíssimo que cada vez menos empresas se arriscam, e justamente uma empresa brasileira! A Tec Toy tem tanta bala na agulha assim pra fazer frente pra Nintendo, Sony e Microsoft? Em poucas palavras - não. A Tec Toy pode até ter uma economia bem estável mas nada que se compare ás três gigantes, mas o grande segredo está neste ponto - a Tec Toy não trabalha sozinha. Junto dela estão outras sete empresas de vários países. A união faz a força.


******** ZEEBO - O console "tupiniquim" (pero no mucho) ********


A idéia de um console 100% nacional, que até chegou a ser apregoada em relação ao Zeebo, é errada. Aliás no mundo atual é muito difícil dizer que alguma coisa é 100% de um país só. O grupo de empresas envolvidas com a criação do Zeebo é grande e envolve empresas comunicação de 7 países: Argentina, Brasil, China, Estados Unidos, França, Israel e Japão. A principal parceira da Tec Toy nessa empreitada é a Qualcom Technologies, que trabalha há anos com jogos e tecnologia para telefones celulares. A Qualcomm entrou com a maior parte do capital do projeto Zeebo e a maior parte da estrutura de Tecnologia como o chip Adreno 130 que é o motor gráfico do console (mais informações técnicas no próximo post).

Curiosidade. O console, apesar de anunciado na internet como "Tec Toy - Zeebo" (tal qual o Nintendo Wii, Sony Playstation e Microsoft Xbox, por exemplo), o console em verdade está diretamente ligado a uma empresa chamada Zeebo Inc. Essa empresa foi criada sobre a estrutura da antiga Tec Toy norte-americana. Seu capital é divido em aproximadamente 58% para a Qualcomm e 42% para a Tec Toy. Ela será a responsável pelo trabalho de avaliação e negociação de títulos e projetos de jogos para o console, além de outras demandas administrativas gerais. Porque então colocar a pequena Tec Toy em frente ao nome do desconhecido console, já que nos casos anteriormente citados as empresas mencionadas antes são gigantes e emprestam prestígio aos consoles ao invés de se beneficiarem dele? Nossa opinião - Zeebo´s Zeebo ou Zeebo inc.´s Zeebo soariam muito estranhos =P.

Bom, voltando á questão da paternidade do menino, talvez possamos dar um crédito extra ao Brasil por conta da concepção - foi a Tec Toy quem apresentou o proposta original do console em 2006 a Qualcomm e a partir desse primeiro contato começaram a se desenhar as demais articulações que resultaram nesse time de empresas de 7 países. Por sinal, é importante atentar para 2 desses países que compõe o time do Zeebo - Brasil e China. Mais do que o país pentacampeão de futebol e a sede das últimas olimpíadas, Brasil e China compõe com destaque o chamado bloco do BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) o bloco dos países de economia mais emergente e que devem inserir na sociedade de consumo cerca de 800 milhões de pessoas nos próximos anos. Especialistas consideram que a soma dos PIB dos países do BRIC deve superar a dos países do G6 (Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Alemanha, Itália e França) em até quarenta anos. Previsões de economistas as vezes escorregam um tanto (afinal a economia é volátil e dinâmica com muitos fatos interferindo no seu desempenho) mas que esses mercados ascendentes estão chamando a atenção das grandes companhias e se destacando no tabuleiro econômico mundial atual é algo inquestionável.


******** BRIC? Que diabos, onde vocês querem chegar com isso? ********


Os quatro países do BRIC são países de economia emergentes e com um potencial de mercado grande em face das suas populações internas. O Brasil, como todos sabemos, é este país belo de extensão continental com quase 200 milhões de habitantes. Apesar de não possuir a maioria das mazelas históricas dos demais países do BRIC (sociedade estratificada, guerra étnica/civil...) é um país onde grande parte dos seus habitantes vivia á margem da sociedade de consumo em condições de miséria. Esse quadro tem sofrido mudanças com as alterações econômicas do país a partir da segunda metade dos anos 90 e principalmente com as políticas sociais perpetradas no governos Lula (que críticas aparte, e eu tenho as minhas, surtiu impactos consideráveis no quesito de inserção econômica da população, possívelmente uma das principais causas de sua popularidade tão destacada). A Rússia é uma nação de mais de 300 milhões de habitantes que se reintegrou ao modelo de mercado economico internacional a relativamente pouco tempo, mas se tornou a nação mais rica e influente do leste europeu, com o passar dos anos a população começou a migrar do sistema economico comunista histórico para o capitalista, a princípio com muita dificuldade mas atualmente com grandes progressos. A Índia, país de cerca de 1 Bilhão de habitantes e de sociedade historicamente dividida em castas, tem se revelado um fenômeno das telecomunicações, desbancando as grandes nações no setor do serviços de comunicação e que vem investindo pesadamente em tecnologia, os especialistas que apontavam a China como a provável mega-potência do século XXI começam a apontar a índia como postulante a esse quadro. A China é o país mais populoso do mundo com 1,5 bilhão de habitantes, a maior parte deles aparte da sociedade de consumo mas com Zonas Econômicas Especiais que representam um retorno econômico para o país equiparável a soma dos PIB de vários blocos econômicos, tecnologicamente seu desenvolvimento é notável e o seu crescimento anual de quase 10% nos últimos 20 anos tem impressionado economistas do mundo inteiro.

"Pô economia numa hora dessas?", "Que mané BRIC o quê, eu quero é saber de videogame!" ou "Ah, se eu quisesse saber alguma coisa sobre economia eu prestaria atenção nas minhas aulas da faculdade" você deve estar pensando a esse momento. Calma amigo, já chegamos lá. Essa introdução longa, e um tanto chata (admitimos), foi feita com fins a ajudar a entender a proposta e a ousadia desse novo console - um console voltado para os países do BRIC e mercados emergentes. Entender o bloco do BRIC é importante para entender essa proposta.

Esses quatro países citados eram vistos como possíveis bons mercados mas sempre sofreram com alguns problemas muito graves para serem vistos com mais interesse, coisas como guerras civis, questões étnicos-religiosas, políticas econômicas que desfavoreciam o desenvolvimento de mercado, pobreza e miséria... Os problemas históricos não se resolveram, mas os governos destas nações conseguiram fazer com que eles não interferissem tanto na economia, propiciando um crescimento economico das nações refletido na inserção do seu povo no mercado de consumo. Como o mundo capitalista está em busca de saídas para expansão esses mercados acabaram se tornando prioridade para muitos nichos de mercado. A investida da Tec Toy é a primeira investida, declarada, de um console visando esses mercados. E investir nos países do BRIC e mercados emergentes significava enfrentar alguns problemas cruciais que eram desafio para a implantação das grandes empresas de videogames nesses países - pirataria, distâncias grandes e problemas com distribuição e a questão da cultura local (tanto língua como cultura de jogos).

********E AGORA, DR. ZEEBO? COMO EU FAÇO?********

Palma, palma, palma ... não prieimos cânico. O novo videogame tem como principal estratégia para o enfrentamento dessa dificuldade, e também como maior elemento de marketing e artifício tecnológico mais relevante, a característica que o faz mais único até o momento – a ausência de mídia física. Exatamente – nada de Cds, Dvds, Bluray discs, Lps, fitas Cassete, Laser Disc, Giga Disc, Disk Drive, Cartucho, Disquete ou qualquer outra mídia de memória física portando jogos! A distribuição de jogos será inteiramente feita por downloads direto de uma rede wireless 3G.






Todos----->/Ô.Ô/Ô.ô/ô.ô\ô.Ô\Ô.Ô\<---- Nós






Sim, isso é chocante, nós sabemos. Mas não deixa de ser uma tacada ousada e com um quê de razão. Através do download wireless você retira a necessidade de prensagem e transporte da mídia física, reduzindo sensivelmente o preço na fabricação dos jogos e na revenda. Diga-se de passagem, também é um elemento de enfrentamento da pirataria pois todas mídias citadas no primeiro parágrafo já são de conhecimento público, e as táticas para cópia e pirataria idem. Com a revenda sendo feita sem intermediários, do ofertante pro cliente o pirateamento se torna um pouco mais complicado, que o digam os bem sucedidos exemplos de venda virtual das redes WiiWare (Wii) X-Box Live Arcade (X-Box) e Playstation Network (hã ... Playstation 3?).
Diga-se de passagem com a sua aposta na ausência de mídia física, a Tec Toy acabou se adiantando naquilo que parece ser a próxima tendência no mercado de jogos – distribuição on-line. O próprio Ken Kutaragi, logo após o lançamento do Playstation 3 adiantou que essa certamente seria a tendência do futuro dos jogos e que ele se espantaria se na configuração do Playstation 4 estivesse presente algum tipo de drive. Na época soou mais como um “mea culpa” em caso de fracasso da mídia Blue Ray, mas as estratégias virtuais das três grandes fabricantes denotaram um olhar muito sério e cheio de expectativas sobre esse nicho. As redes virtuais são hoje, para os consoles, tão importantes quanto o acervo de jogos pois constituem um adcional importante de “fator replay” aos jogos e fidelidade dos consumidores.

Também é digno de menção o esforço de localizar todos os jogos da nova plataforma. Todos os jogos do novo console serão legendados – guiçá dublados – no idioma de camões no período do seu lançamento no Brasil. O universo gamer soava incompreensível muitas vezes ao não jogador por conta da falta de explicação ou da barreira lingüística que se criava quando o jogador neófito se via diante de uma língua estranha durante a experiência de jogo (possivelmente mesmo os jogadores hardcore um dia já se viram nessa situação). Essa é uma estratégia para a aproximação dos não-gamers dos jogos, mas não é a única. A falta de uma cultura gamer não pode ser resolvida apenas com a simples tradução pois mesmo que uma pessoa entendesse tudo que está rolando na tela ela provavelmente ainda ficaria em dúvidas se vale investir tanto numa distração com jogos a preços tão altos (jogos originais no brasil costumam custar mais de 100 reáis cada). Aí temos a outra sacada interessante do console, o valor dos jogos irá variar entre 10 e 30 reáis.


Com jogos a 10 reáis seria possível (hipoteticamente) uma criança economizar durante um mês o lanchinho ou a mesada e ao final comprar virtualmente um jogo para o seu console. Então a distância financeira então se torna menos assombrosa do que era em outras épocas? Bom, há quem questione. O preço sugerido pelo console é de 600 reáis, que embora seja bem menos do que um PS3 ou um Xbox 360 ainda é caro em termos absolutos. Aí ficam duas perspectivas: I Após o lançamento o preço tende a cair bastante (o PS3 foi lançado custando 5 mil reáis em certos estabelecimentos e atualmente pode ser encontrado no mercado por 2 mil e poucos reáis); II – A venda será feita, via de regra, em prestações. A 10 vezes o preço cairia para pouco mais de 60 reáis mensais, e as lojas mais populares podem negociar o console a prestações ainda maiores. Um console barato em relação á nova geração, de jogos baratos e que fala a sua língua.


Interessante? No mínimo curioso. “O que esse bicho é capaz de fazer?”, “Que jogos vão sair?”, “o que dá pra esperar dele?”, “como um ordinário que se diz um gamer veterano me faz o favor de escrever uma porcaria de uma matéria imensa dessas e não me escreve uma linha sequer sobre configuração técnica??????”... calma, amigos hardcore gamers, esses aspectos serão análisados e destrinchados individualmente nas nossas próximas postagens da série “ZEEBO – Que Bicho É Esse?”. Mas, acredito que pelo escrito até aqui vocês já tenham uma vaga idéia do que é o console e qual a proposta dele.

Para quem não tem tanta paciência e quer ver logo o bichinho em ação, seguem uns vídeos dele em ação e de algumas demonstrações do console. Só recomendo que vocês não vão esperando o visual de um PS3 ... aliás, nem de um Wii ... por sinal, nem de um X-box ... melhor dizendo nem de um Gamecube ... ou um PS2 ... sabe o Dreamcast? POIS ZÉ ^^ ... calma, isso tudo tem uma razão de ser e ela será explicada na ZEEBO – Que Bico É Esse - PARTE II – ‘Tecnicamente Falando ...’ ”
COLETIVA DE LANÇAMENTO DO CONSOLE -
Parte 1 -
Parte 2 -
APRESENTAÇÃO DO CONSOLE - Uol Jogos


Até a próxima.

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